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O que é “Reversão Médica”?

Palavras-Chave: “medical reversal”, reversão médica, tratamentos, procedimentos, medicina baseada em evidências.
O Doutor Vinayak K. Prasad é um hemato-oncologista americano e professor de medicina da Universidade de Oregon, Estados Unidos. É um médico conhecido pela sua prolífica produção científica. Junto com o Dr Adam Cifu, um famoso clínico geral e também renomado professor da Universidade de Chicago, escreveu um livro em 2015 que aborda uma questão polêmica e interessante envolvendo a prática médica atual. O nome do livro é “ Ending Medical Reversal”, e não foi traduzido para o português. Numa versão literal seria algo como “Terminando a Reversão ou Inversão Médica”.
Mas o que seria o chamado “Medical Reversal” ou “Reversão Médica”?
Quando um novo tratamento ou intervenção médica é aplicado nos pacientes, nós partimos do pressuposto que este irá trazer benefícios ao longo do tempo e que já foi amplamente testado antes de ser utilizado. Acontece que infelizmente isso nem sempre ocorre. Tratamentos podem ser utilizados de maneira ampla e por tempo prolongado, e depois se descobrir que eles não são só ineficazes, como potencialmente danosos. Essa é a chamado “reversão médica”, que além de danos pode ocasionar um grande grau de frustração nos pacientes. Nessa situação um tratamento utilizado é substituído por outro e depois descobre-se que ele não é melhor que o anterior utilizado.
É chocante saber que tratamentos são utilizados em milhões de pessoas e bilhões de dólares são gastos, sem uma comprovação adequada por pesquisas de sua efetividade. E mais impressionante ainda é saber que pesquisas posteriores podem indicar que as impressões iniciais sobre determinados tratamentos estavam erradas.

Os exemplos de “reversão médica” são inúmeros e citaremos apenas alguns deles.
Nos casos de reversão, o que  parece funcionar em laboratórios, nos computadores ou idealmente no cérebro de pesquisadores inteligentes, não funciona nos pacientes. E ainda, muitos médicos e estudiosos parecem não acreditar nisso. Existem também procedimentos médicos, alguns usados por décadas, com custos enormes ao sistema de saúde, que no decorrer de anos também se mostraram sem real benefício aos pacientes.
A Flecainida é uma droga antiarrítmica, usada para estabilizar os batimentos cardíacos de pacientes que apresentam extra-sístoles, uma forma de batimento irregular do coração (uma espécie de “batimento extra”, mas de forma irregular). A ocorrência de extra-sístoles quando frequentes e em determinadas situações como Infarto Agudo do Miocárdio, está associada com um risco maior de morte. Nos anos 90 a impressão geral era de que a flecainida era a melhor droga para tratar esse tipo de arritmia. Entretanto em 1992 um grande estudo chamado de CAST (em inglês: “Cardiac Arrhythmia Supression Trial”) demonstrou algo surpreendente: a flecainida poderia diminuir as extra-sístoles, mas por outro lado aumentava as chances dos pacientes morrerem. Uma conclusão obviamente estarrecedora e que trouxe à tona a falibilidade de conclusões e modelos científicos.
 A hipertensão arterial ou popularmente conhecida como “pressão alta”, se tornou um grande problema de saúde pública global. Embora a maioria das pessoas com hipertensão não apresentem sintomas, se não tratada pode levar ao aumento do risco de Acidente Vascular Encefálico - AVE (o popular “derrame cerebral”), doença cardíaca, renal e morte. Dessa forma se tratarmos a hipertensão arterial, mesmo que esteja presente de maneira “silenciosa” (sem causar sintomas), estaremos diminuindo o risco de morte das pessoas.
O atenolol é uma droga usada para baixar a pressão ou anti-hipertensiva, da classe conhecida como betabloqueadores. Durante muitos anos foi considerado uma droga padrão para o tratamento da hipertensão e se uma nova droga tentava chegar ao mercado era necessário que provar que ela era tão boa quanto o atenolol. Entretanto em 2002, depois do atenolol ter sido usado por quase 20 anos, surgiu um estudo chamado “LIFE”.  Nele o atenolol foi comparado com uma nova droga chamada losartan. Os resultados mostraram que as pessoas que tomaram losartan apresentaram menos AVE (”derrame cerebral”) e viveram mais das que tomavam atenolol. Aparentemente os resultados indicavam que havia surgido uma droga melhor para substituir o atenolol. Interessante observar que ambos os medicamentos baixavam a pressão da mesma forma.
O estudo LIFE continuou e em 2004 e os pacientes que tomavam atenolol foram comparadas com pessoas que tomavam placebo (remédios que não contém componentes químicos ativos, apenas açúcar, por exemplo).  E por incrível que possa parecer o atenolol não se mostrou melhor no controle da pressão do que uma droga placebo. O atenolol baixava a pressão, mas não diminuía nas pessoas o risco de morte, ou de ter um ataque cardíaco. Ou seja, um medicamento amplamente aceito (que gerou uma discussão constante sobre hipertensão arterial), utilizado como um tratamento considerado padrão durante anos a fio e que gerou muitos milhões de dólares para seus fabricantes, não prolongou a vida dos pacientes em um dia sequer.
Um outro estudo mais recente mostrou que o metoprolol (uma outra droga da classe dos betabloqueadores) não é superior ao atenolol. Parece que se ao se utilizarem betabloqueadores para controlar a pressão arterial pode levar a uma diminuição pequena, em termos de porcentagem, no risco de AVE (”derrame cerebral”), mas não prolongam a vida. Ou seja, para a medicina esses medicamentos não funcionaram.
A vertebroplastia é procedimento médico que foi idealizado no final da década de 90 por dois radiologistas. Visa tratar as pessoas, a maioria mulheres, que sofreram fraturas da coluna causadas por osteoporose, uma espécie de enfraquecimento gradativo, que leva à dor nas costas crônica. Nesse procedimento, descrevendo de maneira simples, uma agulha é inserida no osso fraturado seguida da colocação de “cimento” ortopédico. Com isso, a fratura é corrigida, a compressão do nervo causada por ela melhora com consequente alívio da dor. No início, os pacientes que realizaram esse procedimento melhoraram muito, o que entusiasmou pacientes e médicos. A cada ano, mais e mais pacientes americanos foram submetidos a tal procedimento. Apesar de ocasionalmente ocorrerem complicações, no geral o procedimento parecia funcionar bem e gerava lucros exorbitantes.
Em 2009, pesquisadores realizaram um estudo que mudou as coisas. Selecionaram 200 pacientes, sendo que metade foram submetidos à vertebroplastia e a outra metade não. Interessante notar que os pacientes que não realizaram a intervenção foram levados para a sala de procedimentos. Lá, o “cimento” ortopédico era aberto, de tal forma que os pacientes podiam sentir o cheiro dele. Mas nesse grupo o cimento não era colocado, e em seu lugar era injetado apenas uma solução que não causava efeito algum. Dessa forma, era realizado um procedimento falso. A conclusão surpreendente foi de que ambos os grupos de pacientes melhoraram da dor de maneira igual. A vertebroplastia não se mostrou superior a uma intervenção falsa (placebo).
A “reversão médica” pode ocorrer em qualquer aspecto da medicina: em um tratamento com medicamentos, procedimentos cirúrgicos, exames diagnósticos, rastreamento de doenças, etc. A prática médica está cada vez mais recheada de exemplos de intervenções que não funcionam, não são efetivas quando comparadas com a ausência de tratamento, e também não se mostram melhores que outras já utilizadas e mais antigas. Estima-se que cerca de 40% dos tratamentos e práticas utilizados rotineiramente são ineficazes, o que é  bem significativo em termos numéricos.
 Embora seja difícil estimar a dimensão exata da “reversão médica”, cada vez mais surgem evidências de que não existem provas de benefícios em muito do que é feito no sistema de saúde.  
Voltaremos a abordar esse tema em futuros posts e a melhor forma de se combater a “reversão médica”.



Fonte: PRASAD, Vinayak; CIFU, Adam. Ending Medical Reversal: Improving Outcomes, Saving Lives. 1. ed. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2015. 280 p. ISBN 1421417723.

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